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domingo, 25 de janeiro de 2026

SE FOSSE EU, EU FARIA DIFERENTE? Ou, eu só quero que seja diferente?

 Reflito, a partir do manhwa A Fortune-Telling Princess — que, aliás, recomendo muito —, sobre algo que atravessou a ficção e tocou a minha própria realidade.

Sempre que vejo personagens que retornam a um passado que conhecem, que sabem exatamente quem feriu, quem ignorou, quem falhou, penso:
“Ah… se fosse eu, eu faria diferente.”



E então me pego na armadilha da própria pergunta:
Eu faria?
Ou isso é só mais uma forma delicada de hipocrisia?

Porque, sejamos honestos:
quando estamos sufocados pela própria dor, raramente agimos como grandes protagonistas.
Agimos como sobreviventes.

“Thainá, como assim?”

Digo no sentido mais simples — e mais cruel.
Passei boa parte da infância tentando ser vista.
Buscando reconhecimento.
E, de alguma forma, continuo tentando até hoje, através da perfeição.


Não mais para os meus pais, mas para aquela criança interna

que ainda vive sob a cobrança de ser suficiente.
Uma criança que nunca foi realmente curada.

E, nessa luta silenciosa, percebo algo desconfortável:
eu não conseguiria simplesmente fechar os olhos para o passado — mesmo que distante —
ignorar o que senti, o que vivi,
e agir de forma plenamente amorosa com quem me ignorou por tanto tempo.
Com quem ignorou a minha dor.

Mas então a pergunta retorna, insistente:
vale a pena continuar vivendo nessa dor?

Será que devolver o mesmo gosto amargo que recebi me protege…
ou apenas me aprisiona?

Será que sou orgulhosa demais?
Ou apenas medrosa?
a ponto de fugir dos outros
ou, retrucar com a mesma hostilidade que eles me acometeram,
para o resto da vida?



Será certo ser amor
quando tudo o que me ofereceram foi dor?

Será que devo mudar, para que eles, enfim mudem?
Será que eu devo mudar mais uma vez para eles? Ou estarei fazendo um favor para mim?

''Poxa, Thainá… por que você sempre se expõe tanto?''

Não é se expor.
É olhar para a própria dor com honestidade,
na esperança de que, ao nomeá-la,
ela acorde vocês... E, felizmente, quem sabe,
me liberte também.

Thainá Domingues Benasse.






quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Natal? Corta essa --'

Vejamos que, com o passar do tempo, aprendemos a guardar a pouca energia que já não nos resta.

Não digo evitar discussões, porque quem está realmente esgotado manda logo um “vai se fuder”. Eu diria: evitar o encontro, o mesmo ambiente, o mesmo ar — a mesma presença.



Talvez seja sobre idade, ou maturidade, mas cheguei à conclusão de que não irei mais viver a vida dos outros. Refiro-me a caber na realidade que o outro quer impor.


Um exemplo prático e realista da minha vida:



“Meu pai vai passar o Natal com os amigos. Ele faz aniversário dia 24. Eu não os suporto. Porém, para agradar meu pai — que não quer pagar um restaurante ou uma ceia comigo e com minha irmã, uma escolha obviamente dele, já que é mão fechada — terei que aturar insultos sobre o jeito que levo minha vida, insinuações sobre meu posicionamento político e social, meus hobbies, e ainda, por cima, suportar olhares desejosos e repugnantes de velhos ou de caras extremamente nojentos, em qualquer sentido da palavra.”

Quer outro exemplo?


“Família da mamis, na qual não se pode falar de religião, ciência, nem colocar as músicas que gosta; suportar insultos como ‘biscate’ e ainda ver a violência verbal ser diminuída sob o rótulo de ‘mero ato de carinho familiar’.”

Ou seja, nunca posso ser eu. E, quando abro a boca para me impor, sou a pior da minha família.

Não. Não acredito que o Natal se trate de família, tampouco de Cristo, mas sim de perpetuar ciclos infinitos de dor, em nome do contentamento de…

Ninguém.


Thainá Domingues Benasse




sábado, 20 de setembro de 2025

Cura?

— Não dá para curar os outros e ser curada? -- olhou-a com carinho.
— Não
— Certeza? -- as sobrancelhas juntaram em esperança.

— Sim... -- pegou em sua mão. - Veja, só conseguimos curar quando já estamos um pouco inteiros. Talvez, quando alguém tenta curar os outros sem estar, na verdade seja uma fuga da própria dor... ou desespero. Ao ver alguém com a mesma dificuldade — ou não — sente-se alívio, cumplicidade... ouso dizer, até companheirismo.


— Não gosto de generalizar. -- seus cílios grandes fecharam por alguns segundos.
— Claro que não. Só que... todos estamos doentes, todos tentando nos encontrar. Ninguém é perfeito. A questão é que não dá para fugir da própria dor. Ajudar não é sinônimo de esquecer, mas de ter empatia.
— Mas... para ter empatia, é preciso sofrer.
— Sim... -- ele suspirou, como se houvesse perdido. - E também é preciso não se perder nesse sofrimento. Talvez nunca estejamos totalmente curados, mas ainda assim podemos estender a mão. Não porque somos inteiros, mas porque sabemos o que é estar em pedaços. A diferença é não usar o outro como fuga, e sim como encontro.
THAINÁ DOMINGUÊS BENASSE